Museu do Seringal: o registro da exploração

Luíza Cipriani
5 min readMay 28, 2018

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“Nenhuma condição humana é talvez mais miserável que a desses seringueiros, isolados nas suas cabanas dispersas pela mata, trabalhando de estrela a estrela, maltrapilhos, subnutridos, enfermos e analfabetos e, sobretudo, desenganados da vida, que não lhes oferece qualquer esperança de libertação.” Darcy Ribeiro, 1995

O Museu do Seringal, em Manaus (informações sobre horários e como chegar no fim do post!), se propõe a mostrar de forma prática a rotina dos seringais na época do ciclo da borracha, período extremamente marcante em especial para a história da região Norte brasileira. O museu é um cenário construído para a gravação do filme “A Selva”, mas é também a reprodução fiel de um seringal que realmente existiu em uma cidade amazonense chamada Humaitá, a 600 km de Manaus.

Dívidas

A mão de obra para o trabalho extremamente desumano nos seringais vinha da região Nordeste do país. Milhares de homens deixaram suas famílias em casa para, fugindo da seca nordestina, irem em busca de melhores condições financeiras. Estes homens já chegavam nos seringais endividados pelas despesas da viagem até lá. Daí em diante, a dívida só aumentava com o custo de todos os mantimentos básicos para a vida no seringal: instrumentos de trabalho (incluindo a lamparina que usavam na cabeça para iluminar as expedições em busca do látex, que eram feitas a noite), alimentos, e tudo mais que os pudesse seduzir na vendinha do seringal.

A vendinha do seringal, que vendia principalmente comidas e instrumentos de trabalho e endividava os seringueiros

Todas as dívidas eram anotadas em uma caderneta e todos os produtos custavam quantidades exuberantes de borracha extraída. Para que esses trabalhadores pudessem comprar comida suficiente para 1 semana, por exemplo, era cobrado-lhes 50kg de borracha! A maioria dos seringueiros não conseguia, portanto, extrair borracha suficiente para arcar com suas despesas, e com isso iam se endividando e subnutrindo cada vez mais. Além disso, eles eram impedidos de irem embora até que pagassem as dívidas, ou seja, nunca mais se viam livres deste verdadeiro sistema de escravidão.

Moradias

A casa onde morava o chamado “barão da borracha” e sua família surpreende pelo luxo em meio à floresta. Todas as louças eram de prata ou ouro e quase todos os móveis, decorações e objetos eram trazidos da Europa.

Todas as louças na casa do barão feitas de prata ou ouro; No relógio, o 4 representado por IIII em vez de IV denuncia que foi trazido da Suíça.

Em um drástico contraste, a poucos passos dali os barracões em que moravam os seringueiros eram compostos apenas por uma rede. A construção era extremamente precária, feita de madeira, sem proteção contra as condições climáticas ou animais da floresta. Enquanto isso, as roupas sujas do barão e de sua família eram enviadas para lavar na França, porque esles não gostavam da coloração escura da água do rio…

O desumano barraco dos seringueiros

Fé corrupta

Em meio ao seringal também tinha uma pequena igreja onde eram realizadas missas e onde os trabalhadores iam para fazer suas orações, geralmente pedindo aos céus que conseguissem voltar para casa. Era ali também que eles se confessavam para o padre.

Interior da igrejinha do seringal

Porém, acontecia que muitas vezes eles confessavam estar planejando fugir, e o padre, logo em seguida, passava a informação para o barão, que imediatamente acionava a força de seus capangas para que o sonho dos seringueiros não se realizasse.

Do látex para a borracha

Na visita guiada pelo museu, também é mostrado o processo de transformação do látex em borracha. O processo ocorria em uma pequena barraca chamada tapiri, onde o látex era aquecido em forno a lenha para defumar e vulcanizar. Assim, adquiria forma de “bobina” (na foto) para facilitar o armazenamento, a conservação e o transporte.

As bobinas de borracha sendo pesadas

A fumaça produzida nesse processo, porém, causava muitas doenças nos seringueiros, que as inalavam constantemente, principalmente a tuberculose. Além disso, a fumaça também fazia com que muitos seringueiros ficassem cegos. Vale lembrar que, junto com tudo isso, era frequente o desenvolvimento de malária e beribéri, devido à subnutrição e a todas as condições precárias em que esses homens viviam.

A visita ao museu do seringal é com certeza indispensável para quem for a Manaus e quiser conhecer na prática sobre um período tão importante para a história da região. É um lugar que nos faz refletir e questionar sobre o custo humano por trás das grandes e imponentes construções, com as quais costumamos ficar maravilhados. Exemplo disso é o Teatro Amazonas, que é de fato maravilhoso e que foi construído com os ganhos provenientes da comercialização da borracha. Mas quantas vidas e quanto sofrimento humano isso custou? É sempre bom termos esse questionamento em mente ao visitar atrações pelo Brasil e por todo o mundo.

Informações sobre o museu

O museu do seringal é diferente até na forma como chegar: o único jeito é por via fluvial! Para chegar até lá pegamos um uber até a Marina do Davi, que custou R$ 30,00 saindo da praça do Teatro Amazonas. Como estávamos em 4 pessoas, valeu a pena, mas também é possível chegar até lá de ônibus (número 120).

De lá, pegue qualquer barco que pare no museu do seringal. Da marina até o museu leva cerca de 25 minutos.

O museu funciona todos os dias das 8 às 16h, mas se programe para chegar no máximo até as 15h para dar tempo de fazer a visita guiada, que custa R$ 5,00 por pessoa.

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Written by Luíza Cipriani

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